“Onde estão os artistas?” | “Where are the artists?” [Mark Carpenter]

Onde estão os artistas?

 

Mark Carpenter

Quando Ultimato me convidou para assinar esta coluna, aceitei imediatamente. Achei que no âmbito natural imposto pelo título da coluna (“Arte e cultura”) poderia discorrer sobre a relação entre vida cotidiana e a manifestação artística, sempre à luz do contexto brasileiro e da cosmovisão bíblica. Acreditei também que a disciplina bimestral de escrever sobre o tópico me levaria a descobrir o melhor da arte cristã brasileira. Infelizmente isto não aconteceu. Ou melhor, ocorreu o contrário. Descobri que o que se rotula de arte cristã no Brasil é quase sempre utilitário, kitsch ou mal executado.

Veja, por exemplo, o caso da música cristã. A igreja brasileira não é um bom lugar para quem aprecia música de qualidade. Quem gosta de música autêntica e bem composta padece calado (ou, quem sabe, fazendo mímica bem-comportada) todo domingo em milhares de igrejas espalhadas pelo Brasil.

Tenho certeza que alguns leitores, ao lerem essas declarações, concluirão que (1) sou um cristão rabugento e anti-pentecostal, daqueles que só sabem entoar hinos do Cantor Cristão, acompanhados por piano desafinado ou teclado imitando órgão de tubo; ou (2) sou um elitista, que provavelmente acha que Deus só ouve CD’s de música sacra da Deutsche Grammophon em seu home theater celestial. Mas esses rótulos não colam. Não sou nem retrógrado nem eruditista. Defendo apenas a busca de um padrão mais aculturado, relevante e genuíno, que espelhe a excelência criativa de Deus.

Certamente há exceções, mas são muito raras. O problema não é falta de talento musical. Há nas igrejas inúmeros músicos de grande alcance e potencial. Mas poucos ousam criar fora dos padrões estéreis da pasteurizada praise music mundial.

Não é diferente nas outras artes. O consumismo cristão força a arte a ser um meio, e nunca um fim. Deixamos de valorizar o compositor hábil que cria em louvor a Deus, e preferimos aquele que faz refrães previsíveis que abrem o clima emocional para a oferta ou o sermão. Deixamos de valorizar o artista plástico que se empenha para se expressar, e preferimos aquele que apenas ilustra “sem frescura”. Deixamos de valorizar o poeta, e preferimos o antologista de chavões. Acabamos sempre sacrificando a contemplação cristã no altar do entretenimento.

Não sou contra o entretenimento em si, mas quando ele usurpa o lugar da arte, tenho a impressão que perpetuamos a pobreza de espírito. A falta de contato com a arte não ameaça a salvação do crente em Cristo, mas tenho a sensação de que o deixa menos capaz de distinguir entre real e ideal, menos ciente da extensão do mistério de Deus, menos sensível às nuanças da criação, e menos capaz de dialogar com quem ainda não encontrou o Deus verdadeiro, mas busca significado e transcendência na música, no cinema ou nas galerias de arte.

Quem são os verdadeiros artistas cristãos do Brasil? Conheço alguns escritores, músicos, poetas e artistas plásticos que se expressam com grande talento e paixão. Mas são muito poucos. Peço ajuda dos meus leitores. Quais são os nomes que deverão constar da lista dos bons artistas cristãos nacionais? Enviem suas indicações para , incluindo uma nota biográfica do artista, citação de pelo menos uma das suas obras, e uma frase justificando a sua inclusão nesta lista de “melhores”.

Quem sabe isso seja o início de uma nova oportunidade para os que trabalham com talento na obscuridade.

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Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

COMENTÁRIOS AO ARTIGO

David Tiburcio dos Santos [david_guitar10@hotmail.com] comentou:

“É uma ótima visão do colunista. Precisamos realmente desmascarar o consumismo, a manipulação e interesses pessoais no meio da música cristã. Temos que divulgar aqueles que fazem música boa, e com um coração voltado para o reino, para divulgação do seu amor através da música. O poder seduz, corrompe, cega e tira o bom senso, e vários músicos estão se deixando seduzir por esse poder. Conheço muitos músicos na igreja e na faculdade que fazem o que gostam, muito bem feito e exaltando o nome do Senhor, porém não são reconhecidos por não se deixarem manipular.”

Marcos Ronald C. da Silva [roninhopn@hotmail.com] comentou:

“Tive a felicidade de participar de um culto ontem, na cidade de Itabira, onde o cantor Josimar Bianchi foi o responsável pelo louvor. Fora de série. O amigo, além de humilde, é de um carisma excepcional e deixa transparecer muita fé e espiritualidade em sua apresentação. Merece ter seu nome na lista proposta na coluna. Parabéns Josimar. (Zé Ronim)”

Moisés Ferreira do Nascimento [moyseshoots@hotmail.com] comentou:

“Minhas Sugestões culturais são: Grupo Sal da Terra(forró e música nordestina recheados de boas poesias); Carlinhos Veiga (um dos únicos a fazer música popular cristã brasileira); Josimar Bianchi (cantor que, como todos os outros, grava independente); Tiago Vianna (músico graduado pela Unicamp, que faz música de primeira);Comunidade S8(louvor de pura qualidade. Acredito ser a comunidade que mais transparece Cristo no Brasil), e muitos outros que estão espalhados por esse Brasil. Sem falar nas figuras antológicas, como: João Alexandre, Jorge Camargo, Guilherme Kerr, Quarteto Vida e Nelson Bomilcar”

Moisés Ferreira do Nascimento [moyseshoots@hotmail.com] comentou:

“A mais pura verdade. Carecemos de música e arte de qualidade na música cristã. Isso não quer dizer que nãos existam, mas que são sufocadas por tantos lixos evangélicos, que somos obrigados a engolir.”

Jonatas Eduardo Haeuser [reidostolos@gmail.com] comentou:

“Ótimo texto. Meus sentimentos foram verbalizados pelo Mark Carpenter. Sou um daqueles que faz mímica bem comportada. Os momentos de louvor estão cada vez mais mecânicos e organizados para gerarem emoções. Não sou contra a pessoa se emocionar ao louvar, mas forçar isso e sugerir que louvor tem que ser isso é o problema. Quanto a artistas nacionais, realmente é difícil encontrar. Aristeu Pires possui ótimas poesias musicadas com ritmos brasileiros como a Milonga gauchesca e a Bossa nova.”

Cláudia Carvalho Sathler de Melo [ccsathler@ig.com.br] comentou:

“O articulista tem uma visão acurada do assunto, o que denota seu mérito à frente de uma coluna muito delicada, a exigir alguém com competência e sensibilidade equivalentes. Embora não dispondo dos dados pertinentes, gostaria de citar Asaph Borba como um dos inquestionáveis talentos de que a igreja brasileira dispõe, fundamentado que está em uma carreira além de sua geração (ele já tem filhos que o acompanham e o poderiam suceder!). Outro baluarte cuja obra ainda está viva, o inesquecível Sérgio Pimenta, precisa ser conhecido por essa geração que pouco ouviu, além dos “enlatados” evangélicos.”

Meireana Dutra de Assis Silva [assisnet1@aol.com] comentou:

“O artigo “Onde estão os artistas?” falou muito do que estou sentindo há muito tempo: Não temos cultura. A cultura dos evangélicos é pobre, e são poucos os verdadeiros artistas no nosso meio. Aquilo que temos produzido é para ganhar o “mercado” e não para fazer a diferença; não tem qualidade, porque qualidade não vende. O livro O Cristão e a Cultura mostra como nós separamos o secular do sagrado, sendo que não existe essa divisão; a Palavra não faz essa distinção. Jesus não se separava do povo, ele andava no meio dele; era lá que ele queria fazer diferença; foi de lá que muitos foram salvos.”

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Créditos: Revista Ultimato >> www.ultimato.com.br

~ por musicaeadoracao em 19 Fevereiro, 2008.

Uma resposta to ““Onde estão os artistas?” | “Where are the artists?” [Mark Carpenter]”

  1. ouvi uma musica na igreja que frequento que dizia “faria tudo de novo,morreria de novo, sangraria de novo naquela cruz tudo por amor a voce.” Naõ concordei e gostaria de uma explicação mais profunda dessa letra podemos dizer ue JESUS faria tudo de novo o sacrificio foi perfeito basta nos crermos ou não.

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