“Moral, Ética e Vida Cristã” | “Morality, Ethics and Christian Life” [Tiago Zortéa]
Moral, Ética e Vida Cristã
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Tiago Zortéa
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Meu intento neste texto é o de trazer os conceitos de ética e moral através de uma leitura da filosofia moderna ocidental integrando visões dos teóricos M. Foucault e B. Spinoza e posteriormente aproximar estes conceitos aos princípios do exercício cotidiano da vida cristã direcionados pela Bíblia sagrada.
Moral. Conjunto de normas, leis a serem seguidas, preceitos, costumes, valores, código prescritivo norteador de comportamentos humanos para a convivência coletiva (grupo, comunidade, população, sociedade). A moral diz o que é certo e o que é errado, o que se deve fazer e o que não se deve fazer, o que é “bom” e o que “ruim”; geralmente é dicotômica.
Ética. Postura política [1] que afirma a vida [2] através da problematização da moral, do questionamento e do ajustamento desta. A ética busca explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. É o exercício do pensamento. O escopo da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Ser ético é fazer algo que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o “outro”.
A discussão sobre Moral e Ética é interessante na medida em que nos auxilia a questionar nossas práticas que são, necessariamente, políticas. Não há práticas, visões, opiniões ou posturas que não se constituam como políticas. O entendimento dessas questões nos remonta à percepção de que somos seres sociais (até mesmo nos momentos em que estamos fisicamente sozinhos). Pensar a vida em sociedade, a convivência em grupos, leva-nos a pensar nos modos de relação que estabelecemos com estes grupos. Se existem códigos de conduta para a vivência coletiva, significa que, se o regime vigente for democrático, esses códigos foram acordados socialmente entre os integrantes deste grupo. Entretanto, nenhum grupo sobrevive com o seguimento “cego” de sua moral. Há que se ajustar através da ética o que não é alcançado pela moral, isto é, a afirmação da vida.
Trazendo a discussão para a vida cristã [3], há uma aproximação muito grande da moral e da ética com a lei e a graça, respectivamente. No antigo testamento a lei prescrevia determinada conduta e ao mesmo tempo estabelecia conseqüências para o sujeito que não a obedecesse (Ex. 20, 21 e 22, por exemplo). Não havia espaço para perdão, diálogo, reflexão ou acordo (Ex. 21: 22-27). Portanto, é e continua sendo impossível viver estritamente segundo a lei. Em toda a história da humanidade, somente Jesus conseguiu cumpri-la. Ao mesmo tempo, sabendo Deus que o homem não era capaz de viver segundo a lei, estabelece no Novo Testamento uma nova aliança com o homem, enviando Jesus.
Cristo é a “justiça de Deus”, que não é justa, mas muito mais do que justa. Se a justiça de Deus fosse justa, todos nós estaríamos mortos, pois pecamos e a moral nos prescreveria a morte. Assim, o comportamento de Deus em ceder seu filho em holocausto foi manifestação de amor desmedido (Jo. 3:16).
Se já não bastasse esta ação divina, Jesus ainda traz a nova aliança, interpretando a lei, ajustando-a, problematizando-a, afirmando a vida e a possibilidade de viver eternamente, mesmo burlando a moral (pois a conseqüência que caberia a nós pagar por termos quebrado a prescrição normativa da moral já foi paga por Cristo) (Gal. 2:19-21). Portanto, a ética da vida cristã é a graça (Rom. 5: 20, 21). Jesus foi uma pessoa plenamente ética. Ele não rejeitou a lei, mas trouxe a ela novo sentido, abrindo caminhos e possibilidades às quais eram inacessíveis através da lei (Gal. 3: 19-26). Um ótimo exemplo foi o da mulher adúltera: João 8:1-11. A moral, presente em Levíticos 20:10, que regia a conduta do povo por séculos, teve agora um novo sentido e foi problematizada por Jesus. Quais critérios foram utilizados por Cristo para questionar a moral? Podem ter sido vários, mas creio que um dos principais foi a afirmação da vida e da possibilidade da salvação, entendendo a condição humana daquela mulher (essencialmente pecadora). Que princípios nortearam a ação de Jesus no ato de problematização da moral? Também podem ter sido vários, mas creio que o “amor ao próximo como a si mesmo” refletindo a comunhão que tinha com Deus, foi um dos centrais, senão o principal.
Jesus nos ensina a sermos éticos. Em Lucas 6:36-42 Ele exemplifica a aplicação de posturas éticas no processo de problematização da moral, de forma a ajustá-la tendo como princípios cerceadores os dois mandamentos aos quais se referiu como sendo maiores: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mar. 12:30, 31). Em suas próprias palavras: “Não há outro mandamento maior do que esses”. Portanto, poderíamos afirmar que tais princípios são a base da ética cristã.
Pensando numa aplicação de todos esses pressupostos, cabe-nos, como cristãos, o desafio de viver eticamente. Precisamos entender, tal qual afirma o Pr. Josué Campanhã, que viver a vida cristã é algo impossível. Impossível no sentido de que, enquanto humanos, não conseguiremos alcançar a plena santidade, isto é, uma vida destituída de pecados. O apostolo Paulo afirmara isto em Romanos 7:14-25. O que faremos com esta informação? Desistiremos de ser cristãos? Ou então, sabendo que não estamos totalmente livres do pecado, poderemos fazer o que bem entendermos e atuar errantemente em transgressão, plenos de que independente disto estaremos salvos? Meu entendimento é o de que a vida cristã é um exercício cotidiano contra o pecado, através da permissão da ação do Espírito Santo por meio da fé, e o fortalecimento desta pela leitura e reflexão das escrituras (Rom. 10:17).
Partindo dessas idéias, agir eticamente (para nós cristãos) é, através dos princípios fundamentais indicados por Jesus, viver numa relação transversal (não vertical: somente eu e Deus; e não horizontal: somente eu e meu próximo). O plano de relação transversal engloba os três pontos das dimensões horizontal e vertical: Deus, eu e meu próximo. Quando pensamos numa relação transversal, os planos horizontal e vertical deixam de existir. Em uma análise aplicada, significa dizer que minha relação com o próximo está em completa interferência com minha relação com Deus (I Jo. 4:20-21).
O grande desafio ético cristão está em destituir-se do lugar moralista de apontamento de erros e pôr-se numa posição de compreensão da circunstância que levou nosso próximo a cair, entendendo-o, amando-o, perdoando-o e incentivando-o a prosseguir, sabendo que somos, tal como afirmou Nietzsche “humanos, demasiadamente humanos”, entretanto, para nós esta é uma condição temporária. Lembremo-nos que Jesus disse à mulher que praticou adultério: “[...] Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais” (Jo. 8:11b). Façamos destaque para a primeira frase utilizada por Jesus. Se o próprio Cristo não a condenou, quem somos nós para condenar o próximo? Tenho percebido que em muitas igrejas que se propõem a serem cristãs é estabelecida uma hierarquia de pecados, e consequentemente, sanções equivalentes ao seu peso, quando na Bíblia esta hierarquia não existe.
Rótulos nos enrijecem: religiões moralistas nos encarceram (Rom. 7:6). Temos um modelo ético a seguir, cujas leis são perfeitas pois afirmam princípios de vida e de uma relação transversal pautada no amor. O modelo é perfeito e tem nome: Jesus Cristo!
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Notas
[1] Política aqui no sentido de polis, o coletivo. Portanto, “postura política” refere-se a uma postura perante o coletivo, perante o grupo, perante a sociedade.
[2] Quando se fala em “afirmação da vida”, esta “vida” é necessariamente coletiva, isto é, diz respeito à vida do grupo, ao bem-estar do grupo.
[3] Utilizo a expressão “Vida Cristã” me referindo a uma vida transformada por Deus, templo de habitação do Espírito Santo que tem por preceito fundamental amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mar. 12: 28-31).

Exelente artigo. Obrigado