“O que quero é o que não faço…” | “What I want is what I do not do…” [Pr. Carmo Zortea]

“O que quero é o que não faço…”

Pr. Carmo R. Zortea

Romanos 7.14-25

Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado.
Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço.
E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa.
De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.
Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.
Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.
Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus;
Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.
Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?
Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.

Esta é uma passagem bastante interessante e muito curiosa. Temos umas perguntas a fazer: (a) Isto que Paulo está dizendo é real ou fictício?; (b) Era parte de sua experiência ou ele fala por suposição, por hipótese?

Nesta passagem Paulo desnuda sua alma corajosamente. Ele fala da experiência que é da própria essência da humanidade. Ele sabia o que era bom; desejava fazer o que era bom; mas não conseguia fazer. Ele sabia o que era mau; a última coisa que queria era fazer o mal; sem dúvida, era o que fazia. Paulo se sentia como uma personalidade dividida. Era como se dois homens estivessem dentro da mesma pele. Ele se sentia arrastado em duas direções. Via-se como uma guerra civil ambulante. Sentia-se assediado por esse sentimento de frustração, essa capacidade para ver o que era bom, e essa incapacidade para fazê-lo; essa capacidade para reconhecer o que era mau, e essa incapacidade para conter-se de fazê-lo.

Os contemporâneos de Paulo conheciam bem esse sentimento, como certamente, o conhecemos nós também. Sêneca falou de “nossa impotência nas coisas necessárias”. Falou sobre como os homens odeiam seus pecados e os amam ao mesmo tempo. Ovídio, o poeta romano, escreveu a famosa máxima: “Eu vejo as coisas melhores e as aprovo, porém sigo as piores”.

Ninguém conhecia este problema melhor que os judeus. Eles resolveram a questão clareando a idéia de que cada homem possui duas naturezas, duas tendências, dois impulsos. Uma para o bem e outra para o mal. A inclinação para o mal era vista como “o inimigo implacável do homem”. Estava ali esperando, se fosse necessário toda uma vida, uma oportunidade para, no fim, arruiná-lo. Porém, para eles era igualmente evidente, em teoria, que ninguém tinha por que sucumbir a esse impulso mau. Para os judeus, tudo era uma questão de escolha. Os judeus criam que havia certas coisas que guardavam o homem de ceder ao impulso mau:

(a) Havia a Lei que servia de profilaxia, que teria a função de guardar o homem de ceder ao impulso mau, para prevenir o domínio do mal; e (b) havia a vontade e a mente: Diziam: “Quando Deus criou o homem, implantou nele seus afetos e suas disposições, e logo sobre tudo, entronizou a sagrada mente governante”. Quando o mau impulso atacava, sustentavam os judeus que a sabedoria e a razão poderiam rechaçá-lo.

Estar ocupado no estudo da palavra de Deus é segurança; a Lei é uma profilaxia; em momentos tais se pode sair em defesa do impulso bom.

Paulo sabia de tudo isto; e não duvidava de que tudo era teoricamente certo; mas na prática não funcionava assim.

No homem há uma batalha. Há coisas na natureza humana – que é o que Paulo chama de corpo desta morte – que respondem à tentação e sedução do pecado. É parte da situação humana conhecer o bom e fazer o mal. Que nunca somos tão bons quanto sabemos que poderíamos ser. É parte da situação humana que ao mesmo tempo estejamos acossados, assediados pela bondade e acossados, assediados pelo pecado.

De certo ponto de vista, esta passagem pode ser chamada de “Uma demonstração do inadequado”.

(a) Demonstra o inadequado do conhecimento humano. Se conhecer o bom fosse fazê-lo, a vida seria mais fácil. Porém o conhecimento não faz do homem um homem bom. Podemos saber como se joga futebol, mas pose ser que consigamos jogar; Podemos saber como se faz uma bela poesia ou uma boa redação, mas pode ser que não consigamos fazer. Esta é a diferença entre moral e piedade. Moralidade é o conhecimento do que se deve fazer; piedade é o conhecimento empírico de Jesus Cristo. Moralidade é o conhecimento de um código; piedade é o conhecimento de uma pessoa. E somente quando conhecemos a Cristo Jesus é que somos capazes de fazer o que sabemos que devemos fazer.

(b) Demonstra o inadequado da decisão humana. Decidir fazer algo está muito longe de fezê-lo. Há na natureza humana uma debilidade essencial da vontade. A vontade se enfrenta com os fatos, os problemas as dificuldades, a oposição – e fracassa. Uma vez Pedro fez uma grande resolução: “Ainda que mês seja necessário morrer contigo”, disse, “não te negarei” (Mateus 26.35). A vontade humana sem o poder do Espírito Santo e a força de vida do Senhor Jesus está destinada a fracassar.

(c) Demonstra as limitações do diagnóstico. Paulo sabia com toda clareza (como nós) o que era mau. Porém era totalmente incapaz de corrigi-lo. É como um médico que pode diagnosticar com exatidão uma enfermidade, porém é totalmente incapaz para prescrever uma cura. Jesus é a única pessoa que não só sabe o que é mau, senão que também pode corrigir o mal. Ele não oferece uma crítica senão uma ajuda.

A experiência e o ensino do apóstolo nos leva a certas atitudes que se revelarão linha divisória entre o verdadeiro e o falso cristianismo, o verdadeiro e falso cristão, a verdadeira e a falsa fé, a verdadeira e a falsa piedade:

(a) A luta é sangrenta, mas não é de desistir. O verdadeiro discípulo não se dá por vencido, não desiste de lutar, não permanece caído quando é derrotado, mas levanta-se e volta à batalha. O justo cai, mas se levanta. (Provérbios 24.16).

(b) As quedas e derrotas sofridas não são motivo de desistência da fé, da carreira cristã. Elas fazem parte da história dos homens e mulheres que serviram a Deus no passado. Grandes heróis tanto do Antigo Testamento como do Novo Testamento sofreram derrotas, mas também experimentaram vitórias. Não houve homem que não tivesse essa experiência.

(c) Em meio a tantas lutas e derrotas, o servo pode e deve confiar sempre e exclusivamente na graça de Deus. Ela dá esperança de perdão e de recomeço. Ela é a expressão exata do conhecimento de Deus e de sua compreensão da natureza humana. “Se confessarmos os nossos pecados…” (I João 1.9).

(d) Este texto de Paulo nos alerta sobre a futilidade, sobre o quão vão é o pensamento de que somos alguma coisa, de que temos alguma justiça própria para apresentar a Deus. Não é a toa que Tiago escreveu que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça ao humildes” (Tiago 4.6).

(e) Este texto leva nossos olhos para Jesus, Autor e consumador de nossa fé (Hebreus 12.2). Por essa razão Paulo exclamou: “Graças a Deus por Cristo Jesus”. Quer dizer: Graças a Deus que tenho Jesus como minha esperança, meu justificador, meu redentor; O Senhor, Justiça nossa (Jeremias 33.16).

A AIDS é um retrato clássico do que acontece na alma humana: O HIV mina a defesa do organismo e deixa o corpo à mercê de outros invasores. O pecado age da mesma forma: age na vontade, infecta a vontade; exatamente nosso elemento de esperança no combate ao mal fica neutralizado. Se nossa vontade, que era nossa esperança fica algemada, o que temos então a esperar? Por esta razão o cristão não pode confiar na vontade nem no coração. Jeremias já alertou afirmando que “o coração é enganoso e perverso…” (Jeremias 17.9).

Daí surge para o cristão a esperança de ser guiado pelo Espírito de Deus pelo poder da Palavra de Deus (espada do Espírito). Um cristão sincero e maduro pode chegar a orar assim: “Senhor, sei o que é certo e o que é errado. Estou com muita vontade de fazer o que minha carne diz. Contrariamente à minha vontade vou obedecer ao Senhor, mas reconheço que não é o que a minha carne quer. Vou te obedecer por amor a ti e por profundo respeito e temor que te é devido. Sei que minha carne quer me separar do Senhor, e, tudo que não quero é ser separado de ti. Socorre-me.

~ por musicaeadoracao em 26 outubro, 2008.

6 Respostas to ““O que quero é o que não faço…” | “What I want is what I do not do…” [Pr. Carmo Zortea]”

  1. ESSE ARTIGO EDIFICOU MUITO A MINHA VIDA.
    NÃO VOU PARAR DE LUTAR, NÃO VOU ME DEIXAR VENCER PALAS
    VONTADES QUE TEM QUE MORRER.

    OBRIGADA.
    A PAZ DO SENHOR.

  2. confesso que hoje estou mas forte espiritualmente,poso não parar de fazer as coisas erradas, mas apartir de hoje vou ser um novo ser.obrigada,que o senhor continue te abençoando.

  3. Fui muito abençoada!!

  4. obrigada…digitei no google…o que faco quando nao quero fazer nada? e apareceu seu blog..louvado seja o nome do Senhor!

  5. Acordei nesta madrugada para orar e apos a oracao o Espirito Santo falou grandemente ao meu coracao o que é pra vc fazer vc nao faz… levou me a essa msg postada que falou de uma forma maravilhosa ao meu coracao. Agora vou encerrar minha oracao orando por vc que postou essa msg não o conheço mas…

  6. DEUS É TREMENDO, ELE CONHECE O NOSSO INTERIOR!! POR ISSO QUE DEVEMOS LUTAR CONSTANTEMENTE CONTRA O NOSSO QUERER E A NOSSA PRÓPRIA VONTADE, LEMBRANDO QUE A NOSSA LUTA NÃO É CONTRA CARNE E NEM SANGUE, MAS CONTRA AS POTESTADES DO MAL!! QUE DEUS VOS ABENÇOE

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