“Pecado, pecadinho, pecadão, isso não…” Isso não Existe!

“Pecado, pecadinho, pecadão, isso não…” Isso não Existe!

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Lembro-me claramente quando estávamos no culto infantil e a professora nos ensinava de forma lúdica, mas muito clara, os ensinamentos bíblicos e princípios messiânicos – os quais permanecem vivos em mim e que contribuíram à formação de meu repertório comportamental. Um dos modos de aprendermos tais ensinamentos era através das músicas infantis. Uma delas, composta de uma frase apenas, me retornou à memória recentemente, sobre a qual me dobrei a refletir:

Pecado, pecadinho, pecadão: isso não!
Pecado, pecadinho, pecadão: isso não!
Pecado, pecadinho, pecadinho, pecadão isso não entra no meu coração!

Considero respeitável a preocupação do autor (desconhecido) em implantar desde cedo a noção de não nos contaminarmos com o que Deus considera impuro (o que é melhor para nós). Entretanto, há uma questão importante a ser analisada, cujos desdobramentos se dão onde sequer imaginamos: o tamanho dos pecados! Engraçado? Talvez, se nossa discussão possuísse um escopo humorístico ou literário. Torna-se, contudo, sério na medida em que pensamos nos possíveis lugares onde e como quebrarão as ondas das águas que agitamos aqui. A metáfora da onda é interessante, pois nenhuma onda nasce grande e forte. Esta se faz inicialmente com pequenos movimentos num lugar restrito, mas quando se espalha ganha força em seu percurso e pode ser perigosa àqueles que a recebem. Creio que esta ilustração pode ser aplicada em diversas questões vitais, mas nos ateremos ao tema adotado.

Quando cantamos “pecado, pecadinho, pecadão”, consideramos, indiscutivelmente, que há pecados maiores do que outros, ou mais pesados, ou mais extensos… enfim, mensuramos, valoramos, estabelecemos escalas, fitas métricas, balanças; tudo isto a fim de dizer o que tem maior ou menor peso ou medida. Mas, nesta altura alguém poderia questionar (e muito bem): o que é pecado? O dicionário etimológico Harper Etymology Dictionary apresenta o conceito como transgressão ou ofensa exclusivamente contra Deus. As Escrituras trazem inúmeros exemplos de ofensas contra Deus, começando pelo livro de Gêneses (o caso do chamado “pecado original” – a desobediência do homem para com Deus) (Leia Gênesis 3). Além disso, os termos usados pela Bíblia para descrever o pecado são abundantes: (a) errar o alvo, fracassar, faltar, delito concreto (Ex. 32.30; Sal. 51.9; Mt. 1.21); (b) rebelião ativa, transgressão da vontade de Deus (Pv. 28.13); (c) desvio (Lv. 4.13) (d) impiedade (Tito 2.12) e diversos outros.

Se concordamos com a letra da pequena canção, apontamos irremediavelmente a existência de uma classe de pecados (maiores e menores), classificando-os hierarquicamente, segundo algum critério. A prática classificatória de pecados é uma herança do catolicismo, que, infelizmente, ainda encontra-se impregnada no cristianismo protestante. De acordo com a doutrina católica, o pecado pode ser distinguido em três categorias: original (que é transmitido a todos os homens, sem culpa própria, devido à sua unidade de origem, que é Adão e Eva), mortal (que é cometido “quando, ao mesmo tempo, há matéria grave, plena consciência e deliberado consentimento”) e venial (“que difere essencialmente do pecado mortal, comete-se quando se trata de matéria leve, ou mesmo grave, mas sem pleno conhecimento ou sem total consentimento, merece penas purificatórias temporais, nomeadamente no Purgatório”). [1].

Há, portanto, algo a ser lembrado: se existe (ou se se estabelece) hierarquia de pecados, isto significa que há critérios utilizados neste estabelecimento, o que por sua vez conduzirá a punições ou recompensas equivalentes ao peso de tais transgressões. Na idade média muitos foram levados à fogueira, mortos pela igreja. Na idade moderna descobriu-se que matar também era pecado – e agora obtem-se o perdão através do número de repetições de determinada oração ou texto. Muitos ainda fazem sacrifícios, percorrendo metros de joelhos, jejuando e praticando outras ações que promovam e materializam um estado de autoperdão – ocasionado pela culpa [2] do pecado.

Nas igrejas protestantes a hierarquia de pecados não é explícita tal como na Igreja Católica, mas as práticas não são tão diferentes. Aliás, creio que seria mais digno listar tal hierarquia e seguir a lista do que pregar determinados preceitos de maneira hipócrita e caminhar a quilômetros do que se prega. Bom, mas afinal, o que pregam os protestantes? O segmento protestante, ou evangélico, não crê em purgatório, nem classifica os pecados como venial, mortal ou capital. Seguindo os preceitos bíblicos, não existe pecado pequeno ou grande, pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3.23). O pecado nada mais é do que a transgressão aos mandamentos de Deus, segundo I João 3:4 “Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei”. Pecado é um ato, pois “cada um é tentado, quando atraído e engodado pelo seu próprio desejo. Depois, havendo concebido o desejo, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14 e 15). Para que tenhamos salvação e desfrutemos da vida eterna, devemos tão somente crer (“Pela graça sois salvos, por meio da fé…” Efésios 2.8) que Jesus é o único salvador, e confessar nossos pecados para sermos perdoados (“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” – I João 1.9).

Muito bem. Mas há algumas questões aqui ainda. O que é pior: falar mal do irmão ou trair a esposa? Roubar ou matar? Trapacear ou mentir? É interessante que ao nos depararmos com tais interrogações, provavelmente temos respostas. A grande questão é que vinculamos os efeitos sociais de uma ação perante a sociedade ao pecado. Estendemos a Deus as conseqüências morais criadas por nós mesmos a certos tipos de atos. Vivemos em sociedade, portanto necessitamos de leis que rejam as condutas dos cidadãos. Lei implica obediência, e seu oposto conduz à punição. Para isto existe o Direito (área responsável pelo entendimento das leis e aplicação de sanções em circunstâncias de não cumprimento das mesmas). Desta forma, para o Direito (e ao mesmo tempo para a sociedade – já que o Direito a representa) matar alguém possui conseqüências mais severas do que roubar, por exemplo. E assim por diante (vide código penal, por exemplo).

O que os cristãos se esquecem é que para Deus (e isto deveria valer para nós também – se somos filhos dEle e queremos agir conforme seus ensinamentos) esta hierarquia é inexistente. Um ladrão e um mentiroso estão nivelados. Um fofoqueiro e um assassino não se distinguem. “Todos pecaram” diz Paulo na carta aos Romanos (3.23). Isso nos faz pensar que não somos nem piores nem melhores do que ninguém. Entretanto, quando (dentro das igrejas) alguém pisa na bola, qual é a atitude de alguns “irmãos”? Não, não é acolhê-lo e ajudá-lo a levantar e caminhar junto. Não é perdoá-lo. Não é abraçá-lo. Sim, é condená-lo, excluí-lo, julgá-lo, retirá-lo de circulação. Esquecem-se da resposta do Messias a Pedro sobre quantas vezes deveria perdoar seu irmão (Mateus 18.22). No momento em que práticas condenatórias se fazem nos ambientes cristãos, há, necessariamente, a estamentatização de pessoas em categorias “mais santas” e “menos santas”, dando margem a julgarem-se superiores aos outros. É interessante lembrar da discrepância entre esse tipo de ato e o que fez Jesus no tempo em que esteve aqui. Ele não conviveu com gente muito certinha. Ao contrário, ele os evitava e criticava; chamou os austeros sacerdotes de “sepulcros caiados”, de “cegos que guiam outros cegos”, de “hipócritas” e, o mais grave, de condenarem os prosélitos a um duplo inferno. Cristo gostava da companhia de pecadores, que lhe pareciam mais humanos, sem máscaras. [3]

Para Jesus, santidade não significava uma simples obediência de normas. Os atos não valem o mesmo que as intenções. Adultério não se restringe a sexo, mas está relacionado aos valores que podem ou não gerar uma traição. O ódio que explode com ânsias de matar é mais grave do que o próprio homicídio. Para Jesus, portanto, pecado e santidade fazem parte das dimensões mais profundas do ser humano. Santidade se confunde com integridade; que deve ser compreendida com inteireza. Deus não quer vidas perfeitinhas, pois Ele sabe que a estrutura humana é pó; não exige correção absoluta, pois para isso, teria que nos converter em anjos. As prostituas, que souberem lidar com faltas e defeitos com inteireza, perceberão os sacerdotes bem compostos, mas que vivem de varrer as faltas para debaixo dos tapetes eclesiásticos. Os mandamentos e a lei só serviram para mostrar que para produzir humanidade não servem os legalismos. Integridade e santidade nascem do exercício constante de confrontar suas luzes e sombras trazendo-as diante de Deus e mesmo assim saber-se amado por Ele. [3]

Não proponho com isso uma espiritualidade que crê num Deus complacente, que nos salvará da morte eterna independente do que fizermos ou pensarmos. O amor de Deus é incondicional, mas a salvação não! Deus está sempre de braços abertos para nos receber (Lucas 15.20) – mesmo sujos e imundos como somos. Entretanto, nossa salvação está condicionada à nossa escolha de seguirmos ou não os preceitos do Pai, de sermos ou não íntegros a Ele. Lembremo-nos da graça (é o amor imerecido do Pai para conosco – já que nossa natureza é essencialmente pecaminosa), já que enquanto humanos não estaremos livres do pecado, pois continuaremos a pecar até morrer. Mas se escolhemos andar com Deus, até mesmo os pecados que cometeremos já foram assumidos por Cristo em sua humilhação e sofrimento em nosso lugar. Acredito que a palavra “amor” não consegue traduzir o ato de Jesus. O que Ele fez está acima do amor… não há vocábulo humano que contemple a grandiosidade de seu ato.

“Pecado, pecadinho, pecadão, isso não!” Realmente, isso não existe!

Notas e referências:

[1] Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 76 e 77.
[2] Discutiremos mais aprofundadamente sobre a culpa em outro artigo.
[3] Gondin, R. (2009). Direto ao Ponto: Ensaios sobre Deus e a Vida. São Paulo: Doxas.

~ por musicaeadoracao em 8 outubro, 2009.

2 Respostas to ““Pecado, pecadinho, pecadão, isso não…” Isso não Existe!”

  1. Gostei da aborgagem! Isso realmente tem inspiração do Espírito Santo.
    Não há um grande pecador e um pequeno, “porque todos pecaram e afastados estão da glória de Deus”.
    Aliás, se não me engano, existe uma transgressão contra Deus, a qual resulta em condenação eterna, sem possibilidade de perdão (algo pra mim bastante misterioso) então não sou capaz de tratar de tal assunto.
    Mas esse “jingle” é um método bastante útil, na questão pedagógica infantil. É aí então que entram vários outros assuntos, como a instrução dos pais aos filhos, para encaminhá-lo aos caminhos de Deus. Interessante é quando a criança, mais tarde percebe esta lacuna e pergunta. Mas para isso, a criança deve ter contato com a bíblia.
    Não estou dizendo, com isso, que devemos tratar a criança como um ser desprovido de intelecto, mas tudo tem o seu tempo oportuno! Espero que meu filho não peça para ouvir João Alexandre aos 3 anos (nada contra ele, é claro!) e questione sobre doutrina!

  2. Considero que o perdão vem do total e não parcial arrependimento dos seus erros “pecados”, Deus quer atingir o seu coração e não se satisfaz com sacrifios de auto-punição.

    O nosso coração quebrantado é o algo que o leva aos braços do Pai. E paz de Cristo excede todo entendimento!

    Is 1:15 Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos, sim quando multiplicais as vossas orações, não as ouço. As vossas mãos estão cheias de sangue; 16 lavai-vos, e purificai-vos. Tiraui a maldade dos vossos atos de diante dos meus olhos! Cessai de fazer o mal, 17 e aprendei a fazer o bem! Praticai o que é reto, ajudai o oprimido. Fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas.

    ou seja, sejamos Filhos de Deus em Cristo Jesus e nada mais.

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