“Rascunhos sobre a vida, a finitude e seus sentidos” [Tiago Zortéa]
Tenho percebido cada vez mais que os eventos são contingenciais, aleatórios, imprevisíveis. Quando as coisas saem da forma como planejamos, tais acontecimentos mostram-se quase como uma “sorte” dado o índice de imprevisibilidade da vida.
Na última sexta-feira, nos alegramos muito com a formatura de minha mãe pela Universidade Federal do Espírito Santo. Contente, ela nos relatava sobre as lutas, dificuldades que enfrentou nos quatro anos de graduação junto às suas amigas, então formandas com ela. Dizia-nos em especial de uma amiga que vivia com a mãe, da alegria pela conquista da graduação em uma universidade pública, das dificuldades tão grandes e dos percalços com poucos recursos durante o tempo de faculdade e da agradável coincidência de receber o canudo exatamente no dia de aniversário da mãe. Imagine que presente! Durante esses tempos, como de costume, as alunas pagaram mensalidades altas para que no fim da caminhada acadêmica pudessem comemorar em grande estilo as vitórias sobre as gotas de suor e lágrimas derramadas na universidade. Tudo pronto para o dia esperado: vestidos, cabelos, unhas, e muita, muita alegria. Ao chegar ao teatro universitário e se encontrar com as amigas, minha mãe pergunta por aquela em especial, pois ainda não havia chegado e poucos minutos restavam para que entrassem com o chapéu e a beca. Estranho, pois mãe e filha aguardavam ansiosas para o grande momento que reunia datas especiais: a formatura da filha e o aniversário da mãe! E foi pelo telefone que souberam que a amiga querida não mais viria, pois estava assentada diante do velório de sua mãe que, repentinamente, horas antes do evento, com algumas dores nas pernas apagou os olhos e não mais os abriu. Após a cerimônia de colação de grau, fomos ao encontro da amiga de minha mãe que, sem forças, não conseguira pronunciar uma palavra por inteiro, tal a insuportável dor diante da sucessão de eventos inexplicáveis.
Não me contive. Perante aquela cena tentava controlar e segurar as lágrimas, mas elas, teimosas e mais poderosas do que eu, insistiam em libertar-se de meus olhos, e junto a elas um turbilhão de pensamentos e interrogações me vieram e alojaram-se em mim. O que é a vida? O que a traz sentido? Corremos tanto, fazemos tantas coisas, escrevemos, trabalhamos, buscamos recursos financeiros, compramos, vendemos, lutamos para nos profissionalizar, cobramos, somos cobrados, lotamos agendas, planejamos, planejamos, planejamos… e tudo pode acabar quando menos esperamos. Trememos diante de nossa finitude. Procuramos não pensar que o fim da vida é iminente e que tudo pode acabar a qualquer momento. Fugimos de algumas verdades sobre a vida e residimos numa série de mentiras para sobreviver, pois a vida não prescinde da ilusão. Iludimo-nos ao planejar tanto, ao cobrar tanto de nós mesmos a perfeição, a execução ideal de determinada tarefa, ao buscar incessantemente o sucesso e a felicidade, quando, em última instância, fugimos desesperadamente da angústia do fim, da real noção de que as coisas não durarão eternamente como estão, e de que na verdade nada que façamos mudará o fim, isto é, a chegada do próprio fim.
Lutamos desenfreadamente contra nossas inseguranças, medos, ansiedades… contra nosso niilismo de cada dia a saber que a única certeza que temos é que não existiremos perenemente. Esta luta se materializa de infinitos modos na busca por sentido. Bebida, dinheiro, trabalho, internet, iPhones, iPads, livros, cursos, mestrados, doutorados, empregos, cargos, e tantos outros. E é exatamente essa fuga, esse desligamento da única coisa que temos certeza (o fim), que não conseguimos (e não conseguiremos) derrotar permanentemente o “nada existencial” que a nós é atribuído enquanto seres humanos.
Meu amigo Tom cantou brilhantemente com Toquinho e Miúcha uma de minhas músicas preferidas: “Sei lá!”. Neste poema de letra impressionante e absolutamente profunda de Vinícius e Toquinho, o mestre entoa:
Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é, por exemplo, que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separaçãoSei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, Sei lá
A vida tem sempre razão.A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não.
Não há saída para o morrer. Não há chegada sem partida. Não há nada sem separação. Sabemos dos males, mas fingimos esquecê-los. Nada renasce antes que se acabe. Esta é nossa condição. Rubem Alves diz que “a sociedade é um bando de homens que caminham, lutando, em direção à morte inevitável”[1] . Tiago (meio-irmão de Jesus) ao escrever sua carta bíblica, fala diretamente sobre a imprevisibilidade da vida (4: 13, 14) : “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, o que é a nossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.”
Como disse o sábio Luiz Felipe Pondé sobre nossas posturas e sentimentos à frente do incerto e fazendo alusão ao seu ambiente de trabalho: “A universidade quer burocratas medíocres que se escondam atrás de grandes teorias para não confessar sua insegurança diante da temida falta de sentido da vida e de sua matéria concreta, o envelhecimento. Não controlamos a vida. Grandes planos podem dar em nada, acreditar em si mesmo pode levar a erros definitivos, escolher ficar rico pode ou não dar certo. É por isso que o normal é ser inseguro, mentiroso, covarde, e não santo ou corajoso”[2].
Resta-nos viver o que ainda há (incertamente) para se viver. Mas como existir com a certeza da incerteza? Dois conceitos me ajudam nessa caminhada: Fé e Graça. Fé, no sentido de que, mesmo que as coisas caminhem para o fim, que as contingências dominem, e que a coerção seja mais frequente do que o bem-estar e os momentos de felicidade, me forçarei ao exercício da coragem (e vale lembrar que coragem não implica ausência de medo e angústia), da luta cotidiana pela existência e pelo único bem, fundamental, que dão sentindo á minha vida: o amor (a Deus, e ao próximo como a mim mesmo!). Nesta direção, Fé é ir embora pois esperar não é saber! Fé é fazer a hora e não esperar acontecer! Fé um tiro no escuro. É acreditar naquilo que não vemos (isto é, o incerto). É arriscar-se mesmo sabendo dos perigos que corremos. É a concepção de que mesmo dando tudo errado, não me arrependerei por ter tentado. Ressoam em mim as palavras de minha avó (nonna Líbera Zortéa) de 87 anos: “Melhor é a tristeza de não ter conseguido do que a vergonha de nunca ter tentado”. E é esta aposta que me impulsiona a investir mais em pessoas e menos em coisas. A valorizar mais os amigos, o tempo que tenho com eles (e que um dia acabará). A aceitar e caminhar com minha família, enxergando com mais esmero o que temos de melhor em nossa relação. Se aproximar mais das pessoas, minimizando aquilo que nos separa e primorando o que nos une. Ao exercício de respeitar o outro, as diferenças, mesmo que aos meus olhos possam ser agressoras àquilo que tradicionalmente carrego como valores (tal como fez Jesus). Ao valorizar muito mais o ser do que o saber.
E o conceito de Graça, o amor divino incondicional, inexplicável, ininteligível, inconcebível e impossível às relações humanas. É a certeza de ser amado independentemente do que fazemos, de nossas vergonhas, medos, anseios. É ser aceito com falhas, equívocos, gafes, pecados e demônios. É conceber o amor como condição ontológica do divino e não como mero atributo. Pondé, ao analisar a graça na obra de Dostoievski diz:
“A ideia de que a busca da felicidade humana, no plano da natureza implica no niilismo, é porque a busca da felicidade humana é o motor do nada, é mal. Só deixa de produzir o nada quando é atravessada pelo sobrenatural – pela graça. E qual é a marca disso? São aqueles indivíduos capazes de pensar no outro, de estar totalmente voltados para o outro, nunca para si mesmos. Descentrados afetivamente, atravessados pelo Páthos divino. Esse nada é a ausência do sobrenatural, é a ausência de ser, é a perda de qualquer critério, é a própria ideia do niilismo”[3].
Nada disso é possível na solidão. A vida só se faz com o outro, na relação com o próximo. A graça se apresenta com a possibilidade do bem, e nos detalhes mais desprezíveis e imperceptíveis como no sorriso de uma criança, na gargalhada de um amigo, nas palavras de carinho de uma mãe, no olhar doce de aceitação de um cônjuge, nas palavras que registram saudade daquele que está distante, nos acordes dissonantes e escalas cromáticas da Bossa Nova, no “Deus te ajude” do transeunte ao receber algumas moedas, na dedicatória de um livro, na bala de menta oferecida por um amigo, nas risadas que acompanham o gosto queimado da pipoca feita em casa… na possibilidade de enxergar Deus imerso e impregnado na vida humana porque o significado de seu nome é “Deus conosco”, aquele que sofre, que ri, que chora, que se emociona, que sente, que se identifica, que caminha conosco em qualquer circunstância independentemente daquilo que classificamos como santo ou profano, puro ou pecado, pois escolheu amar, escolheu rebaixar-se ao mundo humano de ambiguidades, conflitos e angústias.
Qual é o sentido de viver? Não sei. Talvez Essa pergunta tenha uma vastidão de respostas e varie conforme as mudanças contingenciais de nossa vida. Hoje, eu responderia que, a meu ver, o sentido está nas pessoas e nas relações que com elas estabeleço, pois é com elas que construo Fé e são os momentos com elas que me lembram da Graça.
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[1] Livro “Transparências da Eternidade”
[2] Livro “Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto”
[3] Livro “Crítica e profecia: A filosofia da religião em Dostoievski”

Em tudo resumo numa palavra…..”PERFEITO” !!!
Muito inspirador!
Só acresceria que fé vai além dos versos de Geraldo Vandré, pois há que se valorizar a fé que espera enquanto as coisas passam.
Luciano de Aguiar
Ótimo texto, Tiagão! Gostei muito da ideia de Deus “impregnado na vida humana”.
Os cristãos podem pensar o contrário, mas ter fé é uma ação muito mais difícil do que se imagina atualmente. Não foi à toa que Tomé duvidou que Cristo ressuscitaria. Pediu para ver as mãos do Mestre! Ele não foi condenado por seu questionamento: exitou, mas foi tratado com misericórdia e amor. Deus compreende nossas limitações.
Gostei também da ideia sobre coragem, algo que parecia não ter lugar no cristianismo, a não ser quando se trata sobre perseguição. Mas atualmente, somos perseguidos até a morte como foram os discípulos? Como a resposta é não, poderíamos prescindir da coragem. É por isso que a coragem deve ter outro significado, para que a Bíblia continue atual. E gosto como você a enxerga: coragem para enfrentar as angústias e a falta de significado da vida. “Sê forte, corajoso”.
Libertador esse texto. Comungo plenamente com essa idéia. Estou cansado de tanta correria, estou cansado de servir como objeto a esse mercado capitalista que tem feito de nossas relações um terrível negócio.
Acrescento (não que falte alguma coisa) a composição magistral de Almir Sater e Renato Teixeira:
Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
Muito obrigada por suas palavras de Sabedoria, Graça e Fé!!! cheiros, airô
Palavras mais que inspiradoras. Texto Belíssimo! Parabéns!
Oi meu filho amado,
A alma clama pela eternidade, não é?
Lembro-me do suspiro de Jó: “Eu sei que meu Redentor vive, e que, por fim se levantará sobre a terra” (19.25).
Aguardamos com agústia a redenção de toda a criação, principalmente a nossa.
Nosso coração suspira pela eternidade. Acredito que somente lá encontraremos a resposta para nossa inquietação.
Um dia nossas inquietações e angústias cessarão. Estamos caminhando nesta direção, não é, meu filho?
Por hora vamos suportanto o peso das interrogações.
Meu amor a você sempre e eternamente, meu filho querido.
Ass.: O pai.